segunda-feira, 22 de abril de 2019

DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição.



DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. Trad. Luiz Orlandi, Roberto Machado. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2018.

Conclusão

Crítica da representação
[...] a diferença em si mesma parece excluir toda relação do diferente com o diferente, relação que a tornaria pensável. Parece que ela só se torna pensável quando domada, isto é, quando submetida ao quádruplo grilhão da representação: a identidade do conceito, a oposição do predicado, a analogia no juízo, a semelhança na percepção. Se há, como foi tão bem mostrado por Foucault, um mundo clássico da representação, ele se define por essas quatro dimensões que o medem e o coordenam.
[...]
Toda e qualquer diferença que não se enraíze assim será desmesurada, incoordenada, inorgânica: grande demais ou pequena demais, não só para ser pensada, mas para ser. Deixando de ser pensada, a diferença dissipa-se no não ser. Daí se conclui que a diferença em si permanece maldita, devendo expiar ou então ser resgatada sob as espécies da razão que a tornam passível de ser vivida e pensada, que fazem dela o objeto de uma representação orgânica.
P. 349

Em suma, a representação pode tornar-se infinita, mas não adquire o poder de afirmar a divergência e o descentramento; tem necessidade de um mundo convergente, monocentrado: um mundo em que se está embriagado apenas na aparência, em que a razão se faz de bêbada e canta uma ária dionisíaca, mas trata-se ainda da razão “pura”.
p. 351

Inutilidade da alternativa finito-infinito
[...] é essa alternativa, em geral, que de modo algum convém à diferença, pois ela só expressa as oscilações da representação em relação a uma identidade sempre dominante, ou, antes, as oscilações do Idêntico em relação a uma matéria sempre rebelde, cujo excesso e insuficiência ele ora rejeita ora integra.
p. 352

Identidade, semelhança, oposição e analogia: como elas traem a diferença (as quatro ilusões)
É essa vontade platônica de exorcizar o simulacro que acarreta a submissão da diferença.
p. 352
O que é condenado no simulacro é o estado das diferenças livres oceânicas, das distribuições nômades, das anarquias coroadas, toda essa malignidade que contesta tanto a noção de modelo quanto a de cópia.
p. 353
O pensamento, com efeito, se recobre com uma “imagem” composta de postulados que desnaturam seu exercício e sua gênese. Esses postulados culminam na posição de um sujeito pensante idêntico, como princípio de identidade para o conceito em geral. Um deslizamento se produziu do mundo platônico ao mundo da representação [...] . O “mesmo” da Ideia platônica como modelo, garantido pelo bem, deu lugar à Identidade do conceito originário, fundado no sujeito pensante. O sujeito pensante dá ao conceito seus concomitantes subjetivos, memória, recognição, consciência de si. Mas é a visão moral do mundo que assim se prolonga e se representa nessa identidade subjetiva afirmada como senso comum [...] .
p. 353
Restaurar a diferença no pensamento é desfazer esse primeiro nó que consiste em representar a diferença sob a identidade do conceito e do sujeito pensante.
A segunda ilusão diz respeito, antes de tudo, à subordinação da diferença à semelhança. [...] Restaurar a diferença na intensidade, como ser do sensível, é desfazer o segundo nó que subordinava a diferença ao semelhante na percepção e que só fazia ser sentida sob a condição de uma assimilação do diverso tomado como matéria do conceito idêntico.
A terceira ilusão diz respeito ao negativo e à maneira pela qual ele subordina a diferença sob a forma da limitação bem como sob a forma da oposição.
p. 354
Vimos que as Ideias são verdadeiras objetividades, feitas de elementos e de relações diferenciais e dotadas de um modo específico – o “problemático”. Assim definido, o problema não designa nenhuma ignorância no sujeito pensante, como também não expressa um conflito, mas caracteriza objetivamente a natureza ideal como tal. [...] Dessas afirmações, não se deve somente dizer que elas são diferentes, mas que são afirmações de diferenças, em função da multiplicidade própria a cada Ideia. Como afirmação da diferença, a afirmação é produzida pela positividade do problema, como posição diferencial; a afirmação múltipla é engendrada pela multiplicidade problemática. É próprio da essência da afirmação ser em si mesma múltipla e problemática.
p. 355
Tem-se ainda a partir daí uma alternativa ilusória: ou o ser é positividade plena, afirmação pura, mas, então, não há diferença, sendo o ser indiferençado; ou o ser comporta diferenças, é Diferença, e há o não ser, um ser do negativo. Devemos dizer ao mesmo tempo que o ser é positividade plena e afirmação pura, mas que há (não)-ser, que é o ser do problemático, o ser dos problemas e das questões, mas de modo algum o ser do negativo. [...] Restaurar o diferencial da Ideia e a diferença na afirmação que dela deriva é romper esse liame injusto que subordina a diferença ao negativo.
p. 357

A quarta ilusão é, finalmente, a subordinação da diferença à analogia do juízo. [...] Essa distribuição da diferença, totalmente relativa às exigências da representação, pertence essencialmente à visão analógica. Mas essa forma de distribuição, comandada pelas categorias, pareceu-nos trair a natureza do Ser (como conceito coletivo e cardinal), a natureza das próprias distribuições (como distribuições nômades e não sedentárias ou fixas) e a natureza da diferença (como diferença individuante). Com efeito, o indivíduo só é e só é pensado como portador de diferenças em geral, ao mesmo tempo que o próprio Ser se reparte nas formas fixas dessas diferenças e se diz analogicamente daquilo que é.
p. 358

Mas como elas também traem a repetição
Mas deve-0se constatar que as quatro ilusões da representação, assim como desnaturam a diferença, também deformam a repetição; e isto acontece, sob certos aspectos, por razões comparáveis. Em primeiro lugar, a representação não dispõe de qualquer critério direto e positivo para distinguir a repetição e a ordem da generalidade, semelhança ou equivalência. Eis por que a repetição é representada como uma semelhança perfeita ou uma igualdade extrema. Com efeito – este é o segundo ponto -, a representação invoca a identidade do conceito tanto para explicar a repetição quanto para compreender a diferença. A diferença é representada no conceito idêntico e, assim, reduzida a uma diferença simplesmente conceitual. A repetição, ao contrário, é representada fora do conceito, como uma diferença sem conceito, mas sempre sob o pressuposto de um conceito idêntico: assim, há repetição quando coisas de distinguem in numero, no espaço e no tempo, seu conceito permanecendo o mesmo. Portanto, é pelo mesmo movimento que a identidade do conceito na representação compreende a diferença e se estende à repetição.
p. 358
Todavia, não só essa distinção, mas também a repetição são aqui explicadas de maneira totalmente negativa. Repete-se (a linguagem repete) porque não se é real (as palavras não são reais), porque só há definição nominal. Repete-se (a natureza repete) porque não se tem interioridade (a matéria não tem interioridade), porque se é partes extra partes. Repete-se (o inconsciente repete) porque se recalca (o eu recalca), porque não se (o Isso) tem rememoração, recognição nem consciência de si – em última análise, porque não se tem instinto, sendo este o concomitante subjetivo da espécie como conceito. Em suma, repete-se sempre em função do que não se é, e do que não se tem. Repete-se porque não se ouve. [...] Na representação, as forças que asseguram a repetição, isto é, a multiplicidade das coisas para um conceito que é absolutamente o mesmo, só podem ser determinadas negativamente.
p. 359
[...] a multiplicação das coisas sob um conceito absolutamente idêntico tem como consequência a divisão do conceito em coisas absolutamente idênticas.  [...] Portanto, a repetição tem um sentido primeiro do ponto de vista da representação, o de uma repetição material e nua, repetição do mesmo (e não apenas sob o mesmo conceito).
p. 360

O fundamento como razão: seus três sentidos
Fundar é determinar. Mas em que consiste a determinação e sobre o que ela se exerce? O fundamento é a operação do logos ou da razão suficiente. Como tal, ele tem três sentidos. Em seu primeiro sentido, o fundamento é o Mesmo ou o Idêntico. [...] Essa qualidade, objeto de pretensão, é a diferença [...]. A essência, como fundamento, é o idêntico, na medida em que compreende originariamente a diferença de seu objeto. [...] Eis por que o fundamento seleciona e faz a diferença entre os próprios pretendentes. Cada imagem ou pretensão bem-fundada chama-se re-presentação (ícone), pois a primeira em sua ordem é ainda a segunda em si, em relação ao fundamento. É neste sentido que a Ideia inaugura ou funda o mundo da representação. As imagens rebeldes e sem semelhança (simulacros) são eliminadas, rejeitadas, denunciadas como não fundadas, falsos pretendentes.
            Num segundo sentido, uma vez instaurado o mundo da representação, o fundamento não mais se define pelo idêntico. O idêntico tornou-se o caráter interno da própria representação, assim como a semelhança tornou-se sua relação exterior com a coisa. O idêntico exprime agora uma pretensão que, por sua vez, deve ser fundada.
p. 361
Neste terceiro sentido, fundar é representar o presente, isto é, fazer o presente advir e passar à representação (finita ou infinita).
p. 362

Do fundamento ao sem-fundo
Em suma, a razão suficiente, o fundamento é estranhamente curvado. Por um lado, ele pende em direção ao que funda, em direção às formas da representação. Mas, por outro lado, ele se orienta obliquamente e mergulha num sem-fundo, para além do fundamento, que resiste a todas as formas e não se deixa representar. [...]
            É que fundar é determinar o indeterminado. [...] Alguma coisa do fundo sobe à superfície, e sobe sem tomar forma, insinuando-se entre as formas, existência autônoma sem rosto, base informal. Na medida em que ele se encontra agora na superfície, o fundo chama-se profundo, sem fundo. [...] É preciso que o pensamento, como determinação pura, como linha abstrata, afronte esse sem-fundo que é o indeterminado. Esse indeterminado, esse sem-fundo, é igualmente a animalidade própria ao pensamento, a genitalidade do pensamento: não esta ou aquela forma animal, mas a besteira. Com efeito, se o pensamento só pensa coagido e forçado, se ele permanece estúpido enquanto nada o força a pensar, aquilo que o força a pensar não será também a existência da besteira, a saber, que ele não pensa enquanto nada o força?
p. 364
A besteira (e não o erro) constitui a maior impotência do pensamento, mas também a fonte de seu mais elevado poder naquilo que o força a pensar. [...] O sujeito do cogito cartesiano não pensa; ele tem apenas a possibilidade de pensar e se mantém estúpido no seio da possibilidade. Falta-lhe a forma do determinável; não uma especificidade, não uma forma específica informando uma matéria, não uma memória informando um presente, mas a forma pura e vazia do tempo. É a forma vazia do tempo que introduz, que constitui a Diferença no pensamento, a partir da qual ele pensa, como diferença do indeterminado e da determinação. É ela que engendra pensar no pensamento, pois o pensamento só pensa com a diferença, em torno desse ponto de a-fundamento. É a diferença, ou a forma do determinável, que faz com que o pensamento funcione, isto é, que faz com que funcione a máquina inteira do indeterminado e da determinação. A teoria do pensamento é como a pintura: tem necessidade dessa revolução que a faz passar da representação à arte abstrata; esse é o objeto de uma teoria do pensamento sem imagem.
p. 365

Individuações impessoais e singularidades pré-individuais
A representação, sobretudo quando se eleva ao infinito, é percorrida por um pressentimento do sem-fundo. Mas, por tornar-se infinita para assumir a diferença, ela representa o sem-fundo como um abismo totalmente indiferençado, [...]
p. 365
[...] Que o sem-fundo seja sem diferença, quando, na verdade, elas formigam nele, é a ilusão-limite, a ilusão exterior da representação, que resulta de todas as ilusões internas. E o que são as Ideias, com sua multiplicidade constitutiva, senão essas formigas que entram e saem pela rachadura do Eu?
p. 366

O simulacro
O simulacro é o sistema em que o diferente se refere ao diferente por meio da própria diferença. [...] O sistema do simulacro afirma a divergência e o descentramento; a única unidade, a única convergência de todas as séries é um caos informal que compreende todas elas. Nenhuma série goza de um privilégio sobre a outra, nenhuma possui a identidade de um modelo, nenhuma possui a semelhança de uma cópia. Nenhuma se opõe a outra nem lhe é análoga. Cada uma é constituída de diferenças e se comunica com as outras por diferenças de diferenças. As anarquias coroadas substituem as distribuições sedentárias da representação.
p. 367
Uma singularidade é o ponto de partida de uma série que se prolonga por todos os pontos ordinários do sistema até a vizinhança de outra singularidade; esta engendra outra série que ora converge para a primeira, ora diverge dela. A Ideia tem a potência de afirmar a divergência; ela estabelece uma espécie de ressonância entre séries que divergem.
p. 368

Teoria das Ideias e dos problemas
Assim definida, a Ideia não tem nenhuma atualidade. Ela é virtualidade pura.
p. 368
[...] as ressonâncias entre séries põem em jogo as relações ideais. [...] as Ideias se atualizam nas espécies e nas partes, nas qualidades e extensos que recobrem e desenvolvem esses campos de individuação. [...] O conjunto do sistema, que põe em jogo a Ideia, sua encarnação e sua atualização, deve expressar-se na noção complexa de “(indi)-diferenci/çação”. Toda coisa tem como que duas “metades”, ímpares, dissimétricas e dessemelhantes, as duas metades do Símbolo, cada uma delas dividindo-se em duas: uma metade ideal, que mergulha no virtual e é constituída, por um lado, pelas relações diferenciais e, por outro, pelas singularidades correspondentes; uma metade atual, constituída, por um lado, pelas qualidades que atualizam essas relações e, por outro, pelas partes que atualizam essas singularidades. É a individuação que assegura o encaixe das duas grandes metades não semelhantes.
p. 369
É um erro ver nos problemas um estado provisório e subjetivo, pelo qual nosso conhecimento deveria passar em razão das suas limitações de fato. É esse erro que libera a negação e desnatura a dialética, substituindo o (não)-ser do problema pelo não ser no negativo. O “problemático” é um estado do mundo, uma dimensão do sistema e até mesmo seu horizonte, seu foco: ele designa exatamente a objetividade da Ideia, a realidade do virtual.
p. 370

Os dois tipos de jogo: suas características
Há várias maneiras de jogar, e os jogos humanos e coletivos não se assemelham ao jogo divino solitário. Podemos opor as duas espécies de jogo, o humano e o ideal, segundo várias características. Primeiramente, o jogo humano supõe regras categóricas preexistentes. Em seguida, estas regras têm o efeito de determinar probabilidades, isto é, “hipóteses” de perda e hipóteses de ganho. Em terceiro lugar, esses jogos nunca afirmam todo o acaso; ao contrário, eles o fragmentam e, em cada caso, subtraem do acaso, excetuam do acaso a consequência do lance, pois eles consignam tal ganho ou tal perda como necessariamente ligado à hipótese. Eis por que, finalmente, o jogo humano procede por distribuições sedentárias: com efeito, a regra categórica prévia tem aí o papel invariante do Mesmo e goza de uma necessidade metafísica ou moral; por esta razão, ela subsume hipóteses opostas às quais ela faz com que corresponda uma série de lances, de jogadas, de arremessos numericamente distintos, encarregados de operar uma distribuição destas hipóteses; e os resultados dos lances, as reincidências, se repartem de acordo com sua consequência, segundo uma necessidade hipotética, isto é, de acordo com a hipótese efetuada. Eis a distribuição sedentária em que há partilha fixa de um distribuído, segundo uma proporcionalidade fixada pela regra.  Essa maneira humana, essa falsa maneira de jogar, não esconde seus pressupostos morais, onde a hipótese é a do Bem e do Mal, e o jogo é um aprendizado da moralidade.  [...] Esse jogo já se confunde com o exercício da representação, apresentando todos os seus elementos: a identidade superior do princípio, a oposição das hipóteses, a semelhança das jogadas numericamente distintas, a proporcionalidade na relação entre a consequência e a hipótese.
            Totalmente distinto é o jogo divino [...]
p. 373

Antes de tudo, não há regra preexistente, pois o jogo incide sobre sua própria regra. De tal modo que, a cada vez, todo o acaso é afirmado num lance necessariamente vencedor. [...] E as diferentes reincidências já não se repartem de acordo com a distribuição das hipóteses que elas efetuariam, mas elas próprias se distribuem no espaço aberto da jogada única e não compartilhada: distribuição nômade, em vez de sedentária.
[...] Mundo da “vontade”: entre as afirmações do acaso (questões imperativas e decisórias) e as afirmações resultantes engendradas (casos de solução decisivos ou resoluções) desenvolve-se toda a positividade das Ideias. O jogo do problemático e do imperativo substitui o do hipotético e do categórico; o jogo da diferença e da repetição substitui o do Mesmo e da representação.
p. 374

Crítica das categorias
É vã a pretensão de que uma lista de categorias possa ser em princípio aberta; de fato, ela pode ser, mas não em princípio, pois as categorias pertencem ao mundo da representação, no qual constituem formas de distribuição pelas quais o Ser se reparte entre os entes segundo regras de proporcionalidade sedentária. Eis por que a filosofia sempre sofreu a tentação de opor às categorias noções de uma natureza totalmente distinta, realmente abertas, que dessem testemunho de um sentido empírico e pluralista da Ideia: “existenciais” contra “essenciais”, perceptos contra conceitos[...] Tais noções, que é preciso chamar “fantásticas”, na medida em que se aplicam aos fantasmas ou simulacros, distinguem-se das categorias da representação de vários pontos de vista. Primeiramente, elas são condições da experiência real e não apenas da experiência possível. É mesmo neste sentido que, não sendo mais amplas do que o condicionado, reúnem as duas partes da estética, tão infelizmente dissociadas, a teoria das formas da experiência e da obra de arte como experimentação.
p. 375
[...] em segundo lugar, esses tipos orientam distribuições totalmente distintas, irredutíveis e incompatíveis: às distribuições sedentárias das categorias opõem-se as distribuições nômades operadas pelas noções fantásticas. Estão, com efeito, nem são universais, como as categorias, nem são hic et nunc, now here, como o diverso ao qual as categorias se aplicam na representação.
p. 376

A repetição, o idêntico e o negativo
É próprio da representação tomar como modelo uma repetição material nua, que ela compreende pelo Mesmo e explica pelo negativo.  [...] Elementos idênticos só se repetem à condição de uma independência dos “casos”, de uma descontinuidade das “vezes” que faz com que um só apareça se o outro tiver desaparecido: na representação, a repetição é forçada a se desfazer ao mesmo tempo que ela se faz. Ou, antes, ela não se faz. Ela não pode se fazer nessas condições.
[...] uma diferença faz necessariamente parte da repetição superficial da qual ela se extrai, trata-se de saber em que consiste essa diferença. Essa diferença é contração, mas em que consiste essa contração? Não seria ela o grau mais contraído, o nível mais tenso de um passado que coexiste consigo em todos os níveis de descontração e sob todos os graus? A cada instante tem-se todo o passado, mas em graus e níveis diversos, sendo o presente apenas o mais contraído, o mais tenso. Era essa a esplêndida hipótese bergsoniana. Então, a diferença presente não é, como há pouco,
p. 377
uma diferença extraída de uma repetição superficial de instantes, de maneira a esboçar uma profundidade sem a qual esta não existiria.
A diferença já não é extraída de uma repetição elementar, mas entre os graus ou níveis de uma repetição que é, a cada vez, total e totalizante, ela se desloca e se disfarça de um nível a outro, e cada nível compreende suas singularidades como pontos privilegiados que lhe são próprios. [...] eis que a própria diferença existe entre duas repetições: entre a repetição superficial dos elementos exteriores idênticos e instantâneos que ela contrai e a repetição profunda das totalidades internas de um passado sempre variável da qual ela é o nível mais contraído. É assim que a diferença tem duas faces ou que a síntese do tempo já tem dois aspectos: um, Habitus, tensionado para a primeira repetição que ele torna possível; outro, Mnemósina, dado à segunda repetição da qual ela resulta.
p. 378

As duas repetições
Portanto, é a mesma coisa dizer que a repetição material tem um sujeito passivo e secreto, que nada faz, mas no qual tudo se faz, e que há duas repetições, sendo a material a mais superficial. Talvez seja inexato atribuir todas as características da outra à Memória, mesmo que se entenda por memória a faculdade transcendental de um passado puro, tanto inventiva quanto rememorativa. Ocorre que a memória é a primeira figura em que aparecem as características opostas das duas repetições. Uma delas é a repetição do mesmo e só tem diferença subtraída ou extraída; a outra é repetição do Diferente e compreende a diferença.  [...] Uma é exatidão e de mecanismo, a outra é de seleção e de liberdade. Uma é repetição nua, que só pode ser mascarada por acréscimo e posteriormente; a outra é repetição vestida, cujas máscaras, deslocamentos e disfarces são os primeiros, os últimos e os únicos elementos.
p. 379
Ora, a repetição tem como potências o deslocamento e o disfarce, do mesmo modo que a diferença tem a divergência e o descentramento. Uma pertence tanto quanto a outra à Ideia, pois a Ideia não tem dentro nem fora [...]. Da diferença e da repetição, a Ideia faz um mesmo problema. Há um excesso próprio da Ideia, um exagero da Ideia, que faz da diferença e da repetição o objeto reunido, o “simultâneo” da Ideia. É do excesso da Ideia que o conceito se aproveita indevidamente.
p. 380
A Natureza nunca repetiria; suas repetições seriam sempre hipotéticas, deixadas à boa vontade do experimentador e do cientista, se ela se reduzisse à superfície da matéria, se a própria matéria não dispusesse de uma profundidade assim como de flancos da Natureza, onde a repetição viva e mortal se elabora, se torna imperativa e positiva, à condição de deslocar e disfarçar uma diferença sempre presente que faz da repetição uma evolução como tal.
p. 381

Patologia e arte; estereotipia e refrão:  a arte como lugar de coexistência de todas as repetições
As palavras e as ações dos homens engendram repetições materiais ou nuas, mas como efeito de repetições mais profundas e de outra natureza [...]. A repetição é o phatos, a filosofia da repetição é a patologia. Mas há tantas patologias quantas são as repetições intrincadas umas nas outras. 
Consideremos repetições gestuais ou linguísticas, iterações e estereotipias de tipo demencial ou esquizofrênico. Elas não mais parecem dar testemunho de uma vontade capaz de investir um objeto no quadro da cerimônia; elas funcionam antes como reflexos que marcam uma falência geral do investimento (daí a impossibilidade em que se encontra o doente de repetir à vontade nas provas a que é submetido).
P. 382
A repetição é a potência da linguagem, e, em vez de se explicar de maneira negativa, por uma insuficiência dos conceitos nominais, ela implica uma Ideia sempre excessiva da poesia. [...] Assim, é em função de sua potência mais positiva e mais ideal que a linguagem organiza todo seu sistema como repetição vestida.
p. 383
As estrofes giram em torno do refrão. E o que melhor que um canto para reunir os conceitos nominais e os conceitos da liberdade? É nessas condições que uma repetição nua é produzida: ao mesmo tempo no retorno do refrão, como representante do objeto = x, e em determinados aspectos das estrofes diferençadas (medida, rima, ou até mesmo verso rimando com o refrão) que, por sua vez, representam a compenetração das séries. [...]
p. 384

Rumo a uma terceira repetição, ontológica
Mas como evitar que esta profunda repetição não seja recoberta pelas repetições nuas que ela inspira e não caia na ilusão de um primado da repetição bruta? [...] Para além da repetição nua e da repetição vestida, para além da repetição da qual se extrai a diferença e daquela que a compreende, uma repetição que “faz” a diferença.
p. 384
Talvez o mais elevado objeto da arte seja fazer com que todas essas repetições atuem simultaneamente, com sua diferença de natureza e ritmo, seu deslocamento e seu disfarce respectivos, sua divergência e seu descentramento, encaixá-las umas nas outras e de uma à outra, envolve-las em ilusões cujo “efeito” varia em cada caso. A arte não imita, mas isso acontece, antes de tudo, porque ela repete, e repete todas as repetições, a partir de uma potência interior (a imitação é uma cópia, mas a arte é simulacro, ela subverte as cópias em simulacros). Até mesmo a repetição mais mecânica, mais cotidiana, mais habitual, mais estereotipada encontra seu lugar na obra de arte, estando sempre deslocada em relação a outras repetições com a condição de que se saiba extrair dela uma diferença para as outras repetições. Isto porque não há outro problema estético a não ser o da inserção da arte na vida cotidiana. Quanto mais nossa vida cotidiana aparece padronizada, estereotipada, submetida a uma reprodução acelerada de objetos de consumo, mais deve a arte ligar-se a ela e dela arrancar a pequena diferença que, por outro lado e simultaneamente, atua entre outros  níveis de repetição, como também fazer os dois extremos das séries habituais de consumo ressoarem com as séries dos instintos de destruição e de morte; juntar, assim, o quadro da crueldade ao da besteira, descobrir sob o consumo um crispar de maxilares hebefrênico e, sob as mais ignóbeis destruições da guerra, ainda processos de consumo, reproduzir esteticamente as ilusões e mistificações que constituem a essência real desta civilização, para que, finalmente, a Diferença se expresse com uma força repetitiva de cólera, capaz de introduzir a mais estranha seleção, mesmo que seja uma contração aqui e ali, isto é, uma liberdade para o fim de um mundo. Cada arte tem suas técnicas de repetições imbricadas, cujo poder crítico e revolucionário pode atingir o mais elevado ponto para nos conduzir das mornas repetições do hábito às profundas repetições da memória e, depois, às repetições últimas da morte, onde se decide nossa liberdade.
p. 385
[exemplo:] [...] a maneira pela qual, em pintura, a Pop-Art soube compelir a cópia, a cópia da cópia etc., até o ponto extremo em que ela se subverte e se torna simulacro [...]
p. 386

A forma do tempo e as três repetições
Todas as repetições não se ordenariam na forma pura do tempo? Esta forma pura, a linha reta, define-se, com efeito, por uma ordem que distribui um antes, um durante e um depois, por um conjunto que recolhe os três na simultaneidade de sua síntese a priori e por uma série que faz com que um tipo de repetição corresponda a cada um. Desse ponto de vista, devemos distinguir essencialmente a forma pura e os conteúdos empíricos. Poisos conteúdos empíricos são móveis e se sucedem; as determinações a priori do tempo são, ao contrário, fixas, estão paradas como numa foto ou num plano imóvel, coexistindo na síntese estática que opera sua distinção em relação à imagem de uma ação formidável.
p. 386
[...] do ponto de vista da forma pura do tempo, pois, agora, cada determinação (o primeiro, o segundo e o terceiro; o antes o durante e o depois) já é repetição em si mesma, na forma pura do tempo e em relação à imagem da ação. [...] A repetição já não incide (hipoteticamente) sobre uma primeira vez que pode escapar dela, e que de todo modo lhe permanece exterior; a repetição incide imperativamente sobre repetições, sobre modos ou tipos de repetição. A fronteira, a “diferença”, portanto, se deslocou singularmente: ela já não está entre a primeira vez e as outras, entre o repetido e a repetição, mas entre os tipos de repetição. O que se repete é apropria repetição. [...]
            Como explicar que, quando a repetição incide sobre as repetições, que, quando ela reúne todas e introduz entre elas a diferença, ela adquire de pronto um formidável poder de seleção? [...] De acordo com um primeiro nível, a repetição do Antes define-se de maneira negativa e por insuficiência: repete-se porque não se sabe, porque não se recorda etc., porque não se é capaz de ação [...]. Portanto, o “se” significa aqui o inconsciente do Isso como primeira potência da repetição. A repetição do Durante define-se por um devir-semelhante ou um devir-igual: tornar-se capaz da ação, tornar-se igual à imagem da ação, sendo que agora o “se” significa o inconsciente do Eu, sua metamorfose, sua projeção num Eu ou eu-ideal como segunda potência da repetição. [...] Num outro nível, o herói repete a primeira, a do Antes, como num sonho e de um modo nu, mecânico, estereotipado, que constitui o cômico; todavia, esta repetição nada seria se já não remetesse a alguma coisa de oculto, de disfarçado em sua própria série, capaz de nela introduzir contrações como um Habitus hesitante em que a outra repetição amadurece. Esta segunda repetição do Durante é aquela em que o herói se apodera do próprio disfarce, reveste a metamorfose que lhe restitui de um modo trágico, com sua própria identidade, as profundezas de sua memória e de toda a memória do mundo, que ele pretende, tornando-se capaz de agir, igualar ao tempo inteiro. Eis, portanto, que as duas repetições, neste segundo nível, retomam e repartem à sua maneira as duas sínteses do tempo, as duas formas, nua e vestida, que as caracterizam.
p. 388

O que não retorna
O terno retorno afirma a diferença, afirma a dessemelhança e o díspar, o acaso, o múltiplo e o devir. [...] são eliminadas pelo eterno retorno precisamente as instâncias que jugulam a diferença, que paralisam seu transporte, submetendo-o ao quádruplo jugo da representação. A diferença só se reconquista, só se libera no extremo de sua potência, isto é, pela repetição no eterno retorno. O eterno retorno elimina aquilo que, tornando impossível o transporte da diferença, torna ele próprio impossível. O que ele elimina é o Mesmo e o semelhante, o análogo e o Negativo como pressupostos da representação.
p. 393

Analogia do ser e representação, univocidade do ser e repetição
A representação implica essencialmente a analogia do ser. Mas a repetição é a única Ontologia realizada, isto é, a univocidade do ser.
p. 397







quinta-feira, 4 de abril de 2019

Manifesto dos Iguais

Manifesto dos Iguais(1)

Gracchus Babeuf

1796


Primeira Edição: ........
Fonte: Mundo do Socialismo.
Tradução:........
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo, maio 2006.
Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.

Povo da França!
Durante perto de vinte séculos viveste na escravidão e foste por isso demasiado infeliz. Mas desde há seis anos que respiras afanosamente na esperança da independência, da felicidade e da igualdade.
A igualdade! - primeira promessa da natureza, primeira necessidade do homem e elemento essencial de toda a legítima associação! Povo da França, tu não ficaste mais favorecido do que as outras nações que vegetam sobre esta mísera terra! Sempre e em qualquer lado, a pobre espécie humana, vítima de antropófagos mais ou menos astutos, foi joguete de todas as ambições, pasto de todas as tiranias. Sempre e em qualquer lado se adulou os homens com belas palavras, mas nunca e em lugar nenhum obtiveram eles aquilo que, através das palavras, lhes prometeram. Desde tempos imemoriais se vem repetindo hipocritamente: os homens são iguais. Mas desde há longo tempo que a desigualdade mais vil e mais monstruosa pesa insolentemente sobre o gênero humano.
Desde a própria existência da sociedade civil, o atributo mais belo do homem vem sendo reconhecido sem oposição, mas nem uma só vez pôde ver-se convertido em realidade: a igualdade nunca foi mais do que uma bela e estéril ficção da lei. E hoje, quando essa igualdade é exigida numa voz mais forte do que nunca, a resposta é esta: "Calai-vos, miseráveis! A igualdade não é realmente mais do que uma quimera; contentai-vos com a igualdade relativa: todos sois iguais em face da lei. Que quereis mais, miseráveis?" Que mais queremos? Legisladores, governantes, proprietários ricos; é agora a vossa vez de nos escutardes.
Todos somos iguais, não é verdade? Este é um princípio incontestável, porque ninguém poderá dizer seriamente, a não ser que esteja atacado de loucura, que é noite quando se vê que ainda é dia. Pois bem, o que pretendemos é viver e morrer iguais já que como iguais nascemos: queremos a igualdade efetiva ou a morte.
Não importa qual o preço, mas havemos de conquistar essa igualdade real. Ai daqueles que se interponham entre ela e nós! Ai de quem se oponha a um juramento formulado desta forma!
A Revolução Francesa não é mais do que a vanguarda de outra revolução maior e mais solene: a última revolução.
O povo passou por cima dos corpos do rei e dos poderosos coligados contra ele; e assim acontecerá com os novos tiranos, com os novos tartufos políticos sentados no lugar dos velhos.
De que mais precisamos além da igualdade de direitos?
Temos apenas necessidade dessa igualdade, da qual resulta a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão: queremos vê-la entre nós, sob o teto das nossas casas. Estamos dispostos a tudo, a fazer tábua-rasa de tudo o mais, apenas para conservar a igualdade. Pereçam, se for necessário, todas as artes, desde que se mantenha de pé a igualdade real!
Legisladores e governantes, com tão pouco engenho como boa fé, proprietários ricos e sem coração, em vão tentais neutralizar a nossa sagrada missão dizendo: "Eles não fazem mais do que reproduzir aquela lei agrária exigida já por diversas vezes no passado".
Caluniadores, calai-vos pela vossa parte e, em silêncio de confissão, escutai as nossas pretensões, ditadas pela natureza e baseadas na justiça.
A lei agrária, ou a divisão da terra, foi aspiração momentânea de alguns soldados sem princípios, de algumas populações incitadas pelo seu instinto mais do que pela razão. Nós temos algo de mais sublime e de mais eqüitativo: o bem comum, ou a comunidade de bens! Nós reclamamos, nós queremos desfrutar coletivamente dos frutos da terra: esses frutos pertencem a todos.
Declaramos que, posteriormente, não poderemos permitir que a imensa maioria dos homens trabalhe e esteja ao serviço e ao mando de uma pequena minoria.
Há muito tempo já que menos de um milhão de indivíduos tem vindo a dispor de quanto pertence a mais de vinte milhões de semelhantes seus, de homens que são em tudo iguais a eles.
Devemos pôr termo a este grande escândalo, que os nossos netos não quererão acreditar possa ter existido! Devemos fazer desaparecer, finalmente, essas odiosas distinções de classes entre ricos e pobres, entre grandes e pequenos, entre senhores e servos, entre governantes e governados.
Que entre os homens não exista mais nenhuma diferença do que aquela que lhes é dada pela idade e pelo sexo. E, porque todos temos as mesmas necessidades e as mesmas faculdades, que exista, portanto, uma única educação para todos e um idêntico regime de alimentação. Toda a gente se sente satisfeita por dispor do sol e do mesmo ar que respira. Porque não há de acontecer o mesmo com a quantidade e a qualidade dos alimentos?
Mas é verdade que já os inimigos da ordem de coisas mais natural que imaginar se possa protestam e clamam contra nós.
Desorganizadores e facciosos, dizem-nos eles, vós só desejais que exista anarquia e massacre.
Povo da França!
Não desejamos perder tempo a responder a esses senhores, mas a ti dizemos-te: a sagrada tarefa em que estamos empenhados não tem outro objetivo que não seja pôr termo às lutas civis e à miséria pública.
Nunca foi concebido e posto em execução um plano mais vasto do que este. De vez em quando, alguns homens de talento, homens inteligentes, falaram em voz baixa e temerosa desse plano. Mas nenhum deles, claro, teve a coragem necessária para dizer toda a verdade.
Chegou a hora das grandes decisões. O mal encontra-se no seu ponto culminante, está a cobrir toda a face da terra. O caos, sob o nome de política, há já demasiados séculos que reina sobre ela. Que tudo volte, pois, a entrar na ordem exata e que cada coisa torne a ocupar o seu posto. Ao grito de igualdade, os elementos da justiça e da felicidade estão a organizar-se. Chegou o momento de fundar a República dos Iguais, este grande refúgio aberto a todos os homens. Chegaram os dias da restituição geral. Famílias sacrificadas, vinde todas sentar-vos à mesa comum posta para todos os vossos filhos.
Povo da França!
A ti estava, pois, reservada a mais esplendorosa de todas as glórias! Sim, tu serás o primeiro que oferecerá ao Mundo este comovedor espetáculo.
Os hábitos inveterados, os antigos preconceitos, farão novamente tudo para impedir a implantação da República dos Iguais. A organização da igualdade efetiva, a única que satisfaz todas as necessidades sem provocar vítimas, sem custar sacrifícios, talvez em princípio não agrade a todos. Os egoístas, os ambiciosos, rugirão de raiva. Os que conquistaram injustamente as suas possessões dirão que está a cometer-se uma injustiça em relação a eles. Os prazeres individuais, os prazeres solitários, as comodidades pessoais, serão motivo de grande pesar para os indivíduos que sempre se caracterizaram pela sua indiferença ante os sofrimentos do próximo. Os amantes do poder absoluto, os miseráveis partidários da autoridade arbitrária, baixarão pesarosos as suas soberbas cabeças perante o nível da igualdade real. A sua visão estreita dificilmente penetrará no próximo futuro da felicidade comum. Mas que podem fazer alguns milhares de descontentes contra uma massa de homens completamente satisfeitos de terem procurado durante tanto tempo uma felicidade que sempre tiveram à mão?
Logo que se verificar esta autêntica revolução, estes últimos, estupefatos, dirão uns aos outros: "Como custava tão pouco conseguir a felicidade comum! Era necessário apenas ter o desejo de alcançá-la. E por que não fizemos isso há mais tempo?" Será preciso repetir sempre uma e outra vez? Sim, sem dúvida, basta que sobre a terra um homem seja mais rico e mais poderoso do que os seus semelhantes, do que os seus iguais, para que o equilíbrio se quebre e o crime e a desgraça invadam o Mundo.
Povo da França!
Quais os sinais que nos permitem reconhecer as qualidades de uma Constituição? Aquela que se apóia integralmente sobre a igualdade é, na realidade, a única que te convém, a única que satisfaz as tuas aspirações.
As cartas aristocráticas dos anos 1791 e 1795, em vez de romper as tuas cadeias, vieram consolidá-las. A de 1793 supôs ser um grande passo no sentido da igualdade real, mas não conseguiu todavia esse objetivo e não apontou diretamente para a igualdade comum, embora consagrasse solenemente o grande princípio dessa igualdade.
Povo da França!
Abre os olhos e o coração para a plenitude da felicidade; reconhece e proclama conosco a República dos Iguais.

Notas:
(1) Considerado como a primeira declaração política de caráter socialista.

domingo, 23 de setembro de 2018

MARX, Karl. O capital: crítica da economia política: livro I. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.



MARX, Karl. O capital: crítica da economia política: livro I. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.

A divisão social do trabalho tanto especializa seu trabalho quanto pluraliza suas necessidades. P. 133

A mercadoria pode ser produto de nova espécie de trabalho, que se destina a satisfazer necessidades emergentes ou mesmo criar necessidades até antão desconhecidas. Função que era, ontem, uma dentre muitas do mesmo produtor de mercadorias pode, hoje, destacar-se do conjunto, tornar-se autônoma e, assim, enviar ao mercado seu produto parcial como mercadoria independente. P. 133

[...] as mercadorias, por meio de sua alienação geral, fazem dele (o dinheiro), a encarnação real do seu valor, idealmente contraposto a seu corpo útil. Com essa metamorfose, apaga a mercadoria qualquer vestígio de seu valor-de-uso natural e do trabalho útil particular que lhe deu origem, para se transformar na materialização uniforme e social de trabalho humano homogêneo. O dinheiro não deixa transparecer a espécie de mercadoria nele convertida. Qualquer mercadoria, ao assumir a forma dinheiro, é igualzinha a qualquer outra. P. 136

A primeira metamorfose de uma mercadoria, a conversão da forma mercadoria em dinheiro, é sempre a segunda metamorfose oposta de outra mercadoria, a reconversão da forma dinheiro em mercadoria. P. 137




Compra e venda da força de trabalho

Para extrair valor do consumo de uma mercadoria, nosso possuidor de dinheiro deve ter a felicidade de descobrir, dentro da esfera da circulação, no mercado, uma mercadoria cujo valor-de-uso possua a propriedade peculiar de ser fonte de valor, de modo que consumi-la seja realmente encarnar trabalho, ciar valor, portanto. E o possuidor de dinheiro encontra no mercado essa mercadoria especial: é a capacidade de trabalho ou força de trabalho. P. 197

A fim de o possuidor de dinheiro encontrar no mercado a força de trabalho como mercadoria, é mister que se preencham certas condições. 197

Assim, a força de trabalho só pode aparecer como mercadoria no mercado enquanto for e por ser oferecida ou vendida como mercadoria pelo próprio possuidor, pela pessoa da qual ela é a força de trabalho. A fim de que seu possuidor a venda como mercadoria, é mister que ele possa dispor dela, que seja proprietário livre de sua capacidade de trabalho, de sua pessoa [...] P. 198

Desde que apareceu neste planeta, tem o homem de consumir todos os dias, antes de produzir e durante a produção. Se os produtos assumem a forma de mercadoria, têm de ser vendidos depois da produção, e só podem satisfazer às necessidades do produtor depois da venda. P. 199.

Para transformar dinheiro em capital, tem o possuidor do dinheiro de encontrar o trabalhador livre no mercado de mercadorias, livre nos dois sentidos, o de dispor, como pessoa livre, de sua força de trabalho como sua mercadoria, e o de estar livre, inteiramente despojado de todas as coisas necessárias à materialização de sua força de trabalho, não tendo, além desta, outra mercadoria para vender. P. 199

Se tivéssemos ido mais longe em nossas pesquisas, investigando as circunstâncias sob as quais todos os produtos ou a maioria deles tomam a forma de mercadoria, ter-se-ia verificado que isto só ocorre num modo especial de produção, a produção capitalista. P. 199-200

[...] o valor da força de trabalho é o valor dos meios de subsistência necessários à manutenção de seu possuidor. A força de trabalho só se torna realidade com seu exercício, só se põe em ação no trabalho. Através da sua ação, o trabalho, despende-se determinada quantidade de músculos, de nervos, de cérebro etc., que se tem de renovar. Ao aumentar esse dispêndio, torna-se necessário aumentar a remuneração. P. 201

Por toda a parte, o trabalhador adianta ao capitalista o valor-de-uso da força de trabalho; permite ao comprador consumi-la, antes de pagá-la; dá crédito ao capitalista. P. 204.

O antigo dono do dinheiro marcha agora à frente, como capitalista; segue-o o proprietário da força do trabalho, como seu trabalhador. O primeiro, com um ar importante, sorriso velhaco e ávido de negócios; o segundo, tímido, contrafeito, como alguém que vendeu sua própria pele e apenas espera ser esfolado. P. 206.

A estreiteza e as deficiências do trabalhador parcial tornam-se perfeições quando ele é parte integrante do trabalhador coletivo. O hábito de exercer uma função única limitada transforma-o naturalmente em órgão infalível dessa função, compelindo-o à conexão com o mecanismo global a operar com a regularidade de uma peça de máquina. P. 404

O trabalho na fábrica exaure os nervos ao extremo, suprime o jogo variado dos músculos e confisca toda a atividade livre do trabalhador, física e espiritual. P. 483

A produção capitalista, portanto, só desenvolve a técnica e a combinação do processo social de produção, exaurindo as fontes originais de toda a riqueza: a terra e o trabalhador. P. 571

BENJAMIN, Walter. O Narrador.



BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 2012.

1
O narrador – por mais familiar que nos soe esse nome – não está absolutamente presente entre nós, em sua eficácia viva. Ele é para nós algo de distante, e que se distancia cada vez mais. P. 213.

É a experiência de que a arte de narrar está em vias de extinção. [...] É como se estivéssemos sendo privados de uma faculdade que nos parecia totalmente segura e inalienável: a faculdade de intercambiar experiências. P. 213.

Uma das causas desse fenômeno é evidente: as ações da experiência estão em baixa. P. 214                                           

2
A experiência que passa de boca em boca é a fonte a que recorreram todos os narradores. E, entre as narrativas escritas, as melhores são as que menos se distinguem das histórias orais contadas pelos inúmeros narradores anônimos. P. 214

[...] o narrador como alguém que vem de longe. P. 214

4
O senso prático é uma das características de muitos narradores natos. P. 216

Mas, se “dar conselhos” soa hoje como algo antiquado, isto se deve ao fato de a s experiências estarem perdendo a sua comunicabilidade. Em consequência, não podemos dar conselhos nem anos mesmos nem aos outros. P. 216

O conselho tecido na substância da vida vivida tem um nome: sabedoria. A arte de narrar aproxima-se de seu fim porque a sabedoria – o lado épico da verdade – está em extinção. P. 217

Ele é muito mais um sintoma das forças produtivas seculares, históricas, que expulsam gradualmente a narrativa da esfera do discurso vivo [...] p. 217

5
O primeiro indício do processo que vai culminar no ocaso da narrativa é o surgimento do romance no início do período moderno. O que separa o romance da narrativa (e da epopeia no sentido estrito) é que ele está essencialmente vinculado ao livro. A difusão do romance só se torna possível com a invenção da imprensa. P. 217

A origem do romance é o indivíduo isolado, que não pode mais falar exemplarmente sobre suas preocupações mais importantes e que não recebe conselhos nem sabe dá-los. P. 217

O primeiro grande livro do gênero, Dom Quixote, já ensina como a grandeza de alma, a coragem e a generosidade de um doa mais nobres heróis – de Dom Quixote, justamente – são totalmente refratárias ao conselho e não contêm a menor centelha de sabedoria. P. 217

6
[...] verificamos que com a consolidação da burguesia – da qual a imprensa, no alto capitalismo, é um dos instrumentos mais importantes – destacou-se uma forma de comunicação que, por mais antigas que fossem suas origens, nunca havia influenciado decisivamente a forma épica. Agora ela exerce essa influência. Ela é tão estranha à narrativa como o romance, mas é mais ameaçadora que ele, e, de resto, provoca uma crise no próprio romance. Essa nova forma de comunicação é a informação. P. 218

[...] o saber que vem de longe encontra hoje menos ouvintes que a informação que forneça um ponto de apoio para o que está próximo. P 219

Se a arte da narrativa é hoje rara, a difusão da informação tem uma participação decisiva nesse declínio. P. 219
A cada manhã recebemos notícias de todo o mundo. E, no entanto, somos pobres em histórias surpreendentes. A razão para tal é que todos os fatos já nos chegam impregnados de explicações. Em outras palavras: quase nada do que acontece é favorável à narrativa, e quase tudo beneficia a informação. Metade da arte narrativa está em, ao comunicar uma história, evitar explicações. P. 219

A informação só tem valor no momento em que é nova. Ela só vive nesse momento, precisa entregar-se inteiramente a ele e sem perda de tempo tem que se explicar nele. Muito diferente é a narrativa. Ela não se esgota jamais. Ela conserva suas forças e depois de muito tempo ainda é capaz de desdobramentos. P. 220

8
Contar histórias sempre foi a arte de contá-las de novo, e ela se perde quando as histórias não são mais conservadas. Ela se perde porque ninguém mais fia ou tece enquanto ouve a história. P. 221

9
A narrativa, que durante tanto tempo floresceu num meio artesão – no campo, no mar e na cidade -, é ela própria, num certo sentido, uma forma artesanal de comunicação. P. 221

“O homem de hoje não cultiva mais aquilo que não pode ser abreviado”. Paul Valéry. P. 223

10
Durante o século XIX, a sociedade burguesa produziu, com as medidas higiênicas e sociais privadas e públicas, um efeito colateral que inconscientemente talvez tivesse sido seu objetivo principal: permitir aos homens evitarem o espetáculo da morte. Morrer era antes um episódio público na vida do indivíduo, e seu caráter era altamente exemplar [...] p. 223

Ora, é no moribundo que não apenas o saber e a sabedoria do homem, mas sobretudo sua vida vivida – e é dessa substância que são feitas as histórias – assumem pela primeira vez uma forma transmissível. P. 224

13

Não se percebeu devidamente até agora que a relação ingênua entre o ouvinte e o narrador é dominada pelo interesse em conservar o que foi narrado. Para o ouvinte imparcial, o importante é assegurar a possibilidade da transmissão. P. 227

A rememoração funda a cadeia da tradição, que transmite os acontecimentos de geração em geração. P. 228

O que se anuncia nessas passagens é a memória perpetuadora do romancista, em contraste com a breve memória do narrador. P. 228

14
Aqui, “o sentido da vida”, e lá, “a moral da história” – esses dois lemas distinguem entre si o romance e a narrativa [...] p. 230

15
Quem escuta uma história está em companhia do narrador; mesmo quem lê partilha dessa companhia. Mas o leitor de um romance é solitário. P. 230

16
O grande narrador tem sempre suas raízes no povo, principalmente nas camadas artesanais. P.

231
Uma escada que chega até o centro da terra e que se perde nas nuvens – é a imagem de uma experiência coletiva, para a qual mesmo o mais profundo choque da experiência individual, a morte, não representa nem um escândalo nem um impedimento. p 232


17

Poucos narradores tiveram uma afinidade tão profunda com o espírito do conto de fadas como Leskov. Essas tendências foram favorecidas pelos dogmas da Igreja ortodoxa grega. Nesses dogmas, como se sabe, a especulação de Orígenes, rejeitada pela Igreja Romana, sobre a apocatastasis, a admissão de todas as almas ao Paraíso, desempenha um papel significativo. [...] p. 233

19
Podemos dizer que os provérbios são ruínas de antigas narrativas, nas quais a moral da história abraça um gesto, como a hera abraça um muro. P. 239

[...] o narrador figura entre os mestres e os sábios. Ele sabe dar conselhos: não para alguns casos, como o provérbio, mas para muitos casos, como o sábio. P. 240

AGAMBEN, Giorgio. O homem sem conteúdo. O anjo melancólico. Trad. Cláudio Oliveira. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.



Walter Benjamin, [...] foi talvez o primeiro intelectual europeu a se dar conta de uma mudança fundamental que tinha ocorrido na transmissibilidade da cultura e da nova relação com o passado que era a sua inevitável consequência. P. 169

Benjamin, que persegui por toda a vida o projeto de escrever uma obra composta exclusivamente de citações, tinha entendido que a autoridade que a citação invoca se funda precisamente na destruição da autoridade que a um certo texto é atribuída pela situação na história da cultura: a sua carga de verdade é função da unicidade da sua aparição, estranhada do seu contexto vivo, [...]. p. 170

É fácil notar que a função estranhadora das citações é o exato correspondente crítico do estranhamento efetuado pelo ready-made [...]. Também aqui um objeto, cujo sentido é garantido pela “autoridade” do seu uso cotidiano, perde de imediato a sua inteligibilidade tradicional para se carregar de um inquietante poder traumatógeno. P.  170 (nota de rodapé)

[...] em uma sociedade tradicional, nem a citação nem a coleção são, de fato, concebíveis, porque não é possível despedaçar em ponto algum as malhas da tradição através da qual se efetiva a transmissão do passado. P. 172

A obra de arte perde, portanto, a autoridade e as garantias que derivavam da sua inserção em uma tradição, para a qual ela construía os lugares e os objetos em que incessantemente se realiza o elo entre passado e presente [...]. p. 172

Baudelaire é o poeta que tem que enfrentar a dissolução da autoridade da tradição na nova civilização industrial e se encontra, por isso, na situação de ter que inventar uma nova autoridade: e ele cumpriu essa tarefa fazendo da própria intransmissibilidade da cultura um novo valor e colocando a experiência do choc no centro do próprio trabalho artístico. O choc é a força de colisão que as coisas adquirem quando perdem a sua transmissibilidade e a sua compreensibilidade no interior de uma dada ordem cultural. Baudelaire compreendeu que, se a arte queria sobreviver à ruina da tradição, o artista tinha que tentar reproduzir na sua obra aquela mesma destruição da transmissibilidade que estava na origem da experiência do choc: desse modo ele conseguiria fazer da obra o veículo mesmo do intransmissível. Através da teorização do belo como epifania instantânea e inapreensível (um éclair...puis la nuit!), Baudelaire fez da beleza estética a cifra da impossibilidade da transmissão. P. 173

[...] valor-estranhamento [...] cuja produção se tornou a tarefa específica do artista moderno: nada além da destruição da transmissibilidade da cultura. P. 173

[...] esse estranhamento não é, por sua vez, senão a medida da destruição da sua transmissibilidade, isto é, da tradição. P. 173

Em um sistema tradicional, a cultura existe somente no ato da sua transmissão, isto é, no ato vivo da sua tradição. P. 173

Contrariamente ao que pode parecer à primeira vista, a ruptura da tradição não significa de fato e de modo algum, a perda ou a desvalorização do passado: é, antes, bem provável que apenas então o passado se revele enquanto tal com um peso e uma influência antes desconhecida. Perda da tradição significa, no entanto, que o passado perdeu a sua transmissibilidade e, até que não se tenha encontrado um novo modo de entrar em relação com ele, o passado pode, doravante, ser apenas objeto de acumulação. P. 174

Mas, quando uma cultura perde os próprios meios de transmissão, o homem se encontra privado de pontos de referência e acuado entre um passado que se acumula incessantemente às suas costas e o oprime com a multiplicidade dos seus conteúdos tornados indecifráveis e um futuro que ele não possui ainda e não lhe fornece nenhuma luz na sua luta com o passado. P. 175

O anjo da história de W.B.

Ele tem o rosto voltado para o passado. Onde aparece para nós uma cadeia de eventos, ele vê uma só catástrofe, que acumula sem trégua ruína sobre ruína e as lança aos seus pés. Ele bem gostaria de se deter, despertar os mortos e recompor o despedaçado. Mas uma tempestade sopra do paraíso e se prendeu nas suas asas, e é tão forte que ele não pode fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele volta as costas, enquanto o acúmulo de ruínas sobe diante dele até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso. (apud Agamben) P. 176

Há uma célebre gravura de Dürer que apresenta alguma analogia com a interpretação que Benjamin dá do quadro de Klee. Ela representa uma criatura alada sentada, no ato de meditar, olhando absorto para frente. Ao lado dela, jazem abandonados no chão os utensílios da vida ativa: uma mó, uma plaina, pregos, um martelo, um esquadro, um alicate e uma serra. O belo rosto do anjo está imerso na sombra: somente as suas longas vestes e uma esfera imóvel diante dos seus pés refletem a luz. Às suas costas, distinguimos uma ampulheta cuja areia está escorrendo, um sino, uma balança e um quadrado mágico e, no mar que aparece no fundo, um cometa que brilha sem esplendor. Sobre toda a cena se difunde uma atmosfera crepuscular, que parece extrair de cada particularidade a sua materialidade. P. 176.

[...] poderia representar o anjo da arte. P. 176

Enquanto o anjo da história tem o olhar voltado para o passado, mas não pode se deter na sua incessante fuga para trás em direção ao futuro, o anjo melancólico da gravura de Dürer olha imóvel para frente. A tempestade do progresso que se prendeu nas asas do anjo da história aqui se acalmou e o anjo da arte parece imerso em uma dimensão atemporal, como se algo, interrompendo o continuum da história, tivesse fixado a realidade circundante em um tipo de suspensão messiânica. Mas, assim como os eventos do passado aparecem para o anjo da história como um acúmulo de indecifráveis ruínas, os utensílios da vida ativa e os outros objetos que estão espalhados em torno do anjo melancólico perderam o significado com o qual os investia a sua utilidade cotidiana e ganharam um potencial de estranhamento que faz deles a cifra de algo inapreensível. P. 176-177

E a melancolia do anjo é a consciência de ter feito do estranhamento o próprio mundo e a nostalgia de uma realidade que ele não pode possuir de outro modo a não ser tornando-a irreal. P. 177

Através da destruição da sua transmissibilidade, ela recupera negativamente o passado, fazendo da intransmissibilidade um valor em si na imagem da beleza estética e abrindo, assim, para o homem um espaço entre o passado e futuro no qual ele pode fundar a sua ação e o seu conhecimento.
Esse espaço é o espaço estético: mas o que nele é transmitido é precisamente a impossibilidade a transmissão, e a sua verdade é a negação da verdade dos seus conteúdos. P. 178

O anjo da história, cujas asas se prenderam na tempestade do progresso, e o anjo da estética, que fixa em uma dimensão atemporal a ruína do passado, são inseparáveis. P. 179

[A arte] se emancipou do mito para se ligar à história. P. 183

BOHM, David. Sobre a criatividade. São Paulo: Ed. Unesp, 2011.



BOHM, David. Sobre a criatividade. São Paulo: Ed. Unesp, 2011.


Sobre a criatividade

[...] não é meramente a nova experiência de trabalhas com algo diferente e fora do comum que o cientista quer – isso seria um pouco mais que outro tipo de paixão. Mais que isso, o que ele realmente est. á procurando é aprender algo novo que tenha algum tipo de importância fundamental: algo, até então, de legalidade desconhecida na ordem da natureza e que demonstre unidade em uma ampla série de fenômenos. Ele deseja encontrar na realidade em que vive certa unidade e totalidade, ou integridade, constituindo um tipo de harmonia que pode ser considerada bela. Basicamente, nesse sentido, o cientista talvez não seja diferente do artista, do arquiteto, do compositor e de outros, pois todos querem criar esse tipo de padrão em seu trabalho. P. 2

[...] podemos ver que o artista, o compositor, o arquiteto e o cientista têm, todos, a necessidade de descobrir e criar algo inteiro e completo, belo e harmonioso. Poucos têm a oportunidade de fazê-lo, e um número ainda menor o consegue. Ainda assim, lá no fundo, é o que um grande número de pessoas em todas as esferas da vida busca quando tenta escapar da monótona rotina diária ao se ocupar com vários tipos de entretenimento, atividades que entusiasmam e estimulam, trabalhos novos, entre outros, e é com isso que procuram, sem sucesso, compensar a insatisfação, a limitação e a mecanicidade de sua vida. P. 3


A ARTE DE PERCEBER O MOVIMENTO

Ele investiga o funcionamento da linguagem e do pensamento (71)

Tais aspectos supostamente fragmentários do esforço humano, como as artes e as ciências, têm raiz na ideia de sociedade como conjunto de nações, etnias ou grupos religiosos e políticos existentes separadamente. No entanto, tudo está intimamente relacionado e é interdependente como aspecto de uma totalidade que, no final, se une coma totalidade da existência. A ideia de que tudo é independente ocasionou uma série ininterrupta de crises ao longo do tempo, que atualmente se acentuou ainda mais.

Assim, em virtude d uma forma geralmente fragmentária da percepção, experiência e atuação, o mundo apresenta com problemas de superpopulação, exausto de recursos naturais, poluição ambiental e interferência no equilíbrio ecológico. 72
Consideremos, por exemplo, a questão do estabelecimento de um equilíbrio ecológico apropriado. Isso exige que o mundo inteiro, com toda a atividade humana, seja considerado uma unidade integral e contínua. 72

Sobre a realidade do pensamento 73

A natureza pode ser considerada como aquela que toma forma por si mesma, e a atividade humana leva à criação de artefatos formados pela participação humana no processo natural, comandada e guiada pelo pensamento. 74

Sobre a fragmentação entre conteúdo do pensamento e sua função. 75

Como exemplo, pensemos em uma mesa. Ela pode ser vista como suporte para papel ou obstáculo no meio do caminho. Cada forma de pensamento leva o indivíduo a ver a mesa de uma maneira diferente, chamando a atenção para os diferentes aspectos e dando origem, assim, a diferentes motivações quanto ao que fazer com relação à mesa (se escrever sobre ela ou removê-la). Assim, enfatizamos que o pensamento e as percepções que guiam a ação, juntamente com os sentimentos e os desejos que constituem a motivação, são aspectos inseparáveis de um movimento completo, e tentar considerá-los separadamente é um modo de fragmentação entre o conteúdo do pensamento e de sua função geral. 76


sexta-feira, 12 de agosto de 2016

DURKHEIM, Émile. O individualismo e os intelectuais. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2016.

DURKHEIM, Émile. O individualismo e os intelectuais. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2016.



[...] focalizamos o estado de espírito dos “intelectuais”* e as ideias que defendem, e não o detalhe de sua argumentação. Se eles se recusam obstinadamente a “submeter seu entendimento à palavra de um general do exército”, tal ocorre porque evidentemente se arrogam o direito de julgar a questão por si mesmos, ou seja, é porque colocam sua razão acima da autoridade, e os direitos do indivíduo lhes parecem imprescritíveis.

*a inteligência é o meio e o fim, o instrumento e o objetivo.

[...] os espíritos se dividiram antes sobre uma questão de princípios do que sobre uma questão de fato.

[...] o individualismo, confundem-no com o utilitarismo estreito e com o egoísmo utilitário de Spencer e dos economistas. Isso significa facilitar a questão. Com efeito, é tão fácil denunciar como sendo um ideal sem grandeza esse mercantilismo mesquinho que reduz a sociedade a não ser mais do que um vasto aparelho de produção e de troca, pois está bastante claro que toda vida comum seria impossível se não existissem interesses superiores aos interesses individuais.

Acredita-se, é verdade, atingir esse individualismo sob a forma de seu primeiro sentido, mas ele difere profundamente daquele e as críticas que se aplicam a um não podem servir ao outro. Longe de fazer do interesse pessoal o objetivo da conduta, ele enxerga em qualquer motivação pessoal a própria fonte do mal.

[...] minha ação é má quando encontra justificativa apenas em minha sorte ou em minha condição social, em meus interesses de classe ou de casta, me minhas paixões etc.

[...] ela constitui uma espécie de média impessoal da qual todas as considerações individuais são eliminadas, uma vez que as divergências e mesmo os antagonismos se neutralizam e se anulam mutuamente.

[...] o dever consiste em desviar nossos olhares daquilo que nos diz respeito pessoalmente e de tudo aquilo que se liga à nossa individualidade empírica, para buscar apenas o que advém de nossa condição humana e que partilhamos com nossos semelhantes.

A pessoa humana, cuja definição é como a pedra de toque por meio da qual o bem se distingue do mal, é considerada sagrada por assim dizer, no sentido ritual do termo.

Qualquer um que atente contra a vida de um homem, sua liberdade ou sua honra, provoca-nos um sentimento de horror, exatamente análogo àquele que experimenta o crente que vê seu ídolo ser profanado. Tal moral não é simplesmente uma disciplina higiênica ou uma sensata economia da existência, mas uma religião em que o homem é, ao mesmo tempo, o fiel e o Deus.
            Contudo, essa religião é individualista, pois o homem é seu objeto, e o homem por definição é um indivíduo.

[...] o indivíduo aí está colocado no nível das coisas sacrossantas [...]

Não há razão de Estado que possa desculpar um atentado contra a pessoa quando os direitos da pessoa estão acima do Estado.

[...] o liberalismo do século XVIII que, no fundo, é o objeto do litígio, não é simplesmente uma teoria de gabinete ou uma construção filosófica, uma vez que se transportou aos fatos, penetrou nas instituições e nos costumes, entrou totalmente em nossa vida.

Ninguém insistiu tanto quanto Kant no caráter supraindividual da moral e do direito. [...] ele colocou na base de sua moral um ato irracional de fé e de submissão.

Essa religião da humanidade tem tudo o que é preciso para falar a seus fiéis em um tom não menos imperativo que as religiões que [ela] substitui.

[...] se a dignidade do indivíduo tivesse origem em suas características individuais ou em particularidades que o distinguem de outrem, poder-se-ia temer que ela o confinasse em uma espécie de egoísmo moral que tornaria impossível qualquer solidariedade.

É a humanidade que é respeitável e sagrada, mas ela não está exclusivamente nele, pois está espalhada por todos seus semelhantes. Por conseguinte, ele não pode toma-la como objetivo de seu comportamento sem ser obrigado a sair de si mesmo e expandir-se. O culto de que ele é, ao mesmo tempo, o objeto e o agente, não se dirige ao ser particular que ele é e que carrega seu nome, massa à pessoa humana, esteja onde estiver e seja qual for a forma em que se encarne

Ora, tudo o que é preciso às sociedades para serem coerentes é que seus membros tenham os olhos fixos em um mesmo objetivo e se encontrem numa mesma fé.

O que move não é o egoísmo, mas a simpatia por tudo que é humano, uma maior piedade por todas as dores e por todas as misérias humanas, bem como uma necessidade ardente de combatê-las e de atenuá-las e, enfim, uma maior sede de justiça.

Esse culto do homem tem como primeiro dogma a autonomia da razão e como o primeiro rito o livre exame.

 Tal é o argumento, sempre rejeitado e sempre renascido, que os eternos adversários da razão retomam periodicamente, e com uma perseverança que coisa alguma faz esmorecer, todas as vezes que um cansaço passageiro do individualismo não caminha sem certo intelectualismo, pois a liberdade do pensamento é a primeira das liberdades.

Tudo o que é necessário são apenas razões para que minha razão se incline diante da de outro. O respeito pela autoridade nada tem de incompatível com o racionalismo desde que a autoridade esteja racionalmente fundamentada.

[...] não é porque, na qualidade de químicos ou de filólogos, de filósofos ou de historiadores, eles se atribuem certos privilégios especiais e um direito superior de fiscalizar a coisa julgada. Mas é que, como homens, eles pretendem exercer todo seu direito de homens e salvaguardar para si um caso que depende exclusivamente da razão. É verdade que eles se mostram mais zelosos desse direito que o restante da sociedade; isso significa muito para eles. Acostumados, pela prática do método científico, a suspender seu julgamento até que se sintam esclarecidos, é natural que não cedam facilmente aos impulsos da multidão e ao prestígio da autoridade.

[...] uma religião não implica necessariamente símbolos e ritos propriamente ditos, nem templos ou padres; todo este aparato exterior não é mais do que a parte superficial. Essencialmente, ela não é outra coisa que um conjunto de crenças e de práticas coletivas oriundas de uma autoridade particular.

Essa ideia de pessoa humana, com as diferentes nuances em função da diversidade dos temperamentos nacionais, é, portanto, a única que se mantém imutável e impessoal, para além da corrente cambiante das opiniões particulares; e os sentimentos que ela desperta são os únicos que se encontram mais ou menos em todos os corações.

Eis como o homem se tornou um deus para o homem e porque ele não pode mais, sem se enganar, criar outros deuses.

O próprio centro da vida moral foi assim transportado do exterior para o interior e o indivíduo transformado em juiz soberano de seu próprio comportamento, sem ter contas a prestar senão a ele mesmo e a seu Deus.

Um órgão da vida pública, por mais importante que seja, não passa de um instrumento, um meio tendo em vista um fim. Para que serve conservar com tanto cuidado o meio se nos desligamos do fim? E que cálculo triste seria renunciar, para viver, a tudo aquilo que constitui o valor e a dignidade da vida.

A liberdade de pensar, de escrever e a liberdade de votar foram então colocadas por eles no nível dos primeiros bens que se devia conquistar, e essa emancipação foi certamente a condição necessária de todos os progressos posteriores.

[...] a liberdade política é um meio, e não um fim; seu valor advém da maneira como ela é colocada em prática; se não serve para nada além de si mesma, ela não é apenas inútil; ela se torna perigosa.

É preciso ultrapassar os resultados conquistados, ao menos para conservá-los.

Reconheçamos mesmo que, de uma maneira geral, a liberdade é um instrumento delicado cujo manejo deve ser aprendido e exercitemos nossos filhos nisso [...]

[...] os progressos necessários só são possíveis graças aos progressos efetuados. Trata-se de utilizar a reflexão, não de lhe impor o silêncio. Somente ela pode nos ajudar a sair das dificuldades presentes; não vemos o que poderia tomar o seu lugar.

Uma vez atravessada a crise, terá certamente chegada a hora de recordar os ensinamentos da experiência, para não se cair novamente nessa inação esterilizante da qual hoje carregamos a punição [...]

Pois, em certa medida, o que deve tranquilizar-nos é que nossos adversários só são fortes em virtude de nossa fraqueza. Eles não são nem apóstolos que deixam transbordar suas cóleras ou seu entusiasmo, nem cientistas que nos trazem o produto de suas pesquisas ou reflexões; são letrados que um tema interessante seduziu.


[...] que humilhação seria se, mesmo não enfrentando adversário mais forte, a razão acabasse por ser derrotada, ainda que por pouco tempo.